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João Saldanha

"João Saldanha - O Filme", documentário que vez por outra passa no Canal Brasil, tenta, por meio de dezenas de depoimentos de amigos, colegas, ex-jogadores, políticos, traçar a vida de um homem que dizia ter feito de tudo. Da grande marcha de Mao Tse Tung ao desembarque das forças aliadas na Normandia, passando pelas feras que colocaram o Brasil rumo ao tri no México em 1970, João tinha visto de perto tudo se passar diante dos seus olhos.


Algumas coisas eram exagero, outras lenda, muitas, verdade. "Carioca de Alegrete", como João Máximo o chamava, João se apaixonou logo pelo futebol. Foi comentarista e no final da década de 1960 foi chamado pelo então presidente da CBD, João Havelange, a comandar a seleção. Eram os tempos das feras de Saldanha: Pelé, Gerson, Tostão, Rivelino e cia, o embrião do time que ganharia o tri no estádio Azteca.

O jeito de comandar a seleção era único, se lembra Gerson. Num dos jogos das eliminatórias, o time estava apático. O empate sem gols fez Saldanha entrar no vestiário bufando. "Se for para jogar essa merda, me avisa, que eu não venho mais nessa porra", disse, virando as costas e saindo. O time ouviu a queixa. O jogo terminou em 6 a 0.

Saldanha ia bem na seleção, até que o provável se tornou realidade. Em uma entrevista a uma emissora de televisão (imagens que estão no documentário), o repórter pergunta ao treinador o que ele acha dos rumores de que Médici estaria querendo Dario, o Dadá, na seleção. Saldanha olha a câmera e começa um discurso, até que no final ele diz. "Do mesmo jeito que o presidente Médici preside e eu não presido, na seleção eu escalo".

A frase seria o estopim de uma crise. Não poderia ser diferente. Os falcões estavam no auge no governo Médici. Censura e tortura eram práticas recorrentes. Saldanha era um homem do partidão, boquirroto, contrário aos militares. Havelange resolveu demiti-lo. No seu lugar, o velho Lobo, que, ao assumir, convocou Dario e o ponta Roberto.

Saldanha viu a Copa de 1970, mas das cabines de rádio. Anos depois, em uma longa entrevista, disse o que pensava. "Como eu poderia participar de uma equipe em que o Médici tinha ingerência? Aquele cara foi um assassino". As razões de Havelange de ter chamado Saldanha ainda são bastante misteriosas.

Frasista brilhante, Saldanha viveu os anos seguintes escrevendo para jornais, comentando partidas na televisão e rádio e continuando sua trajetória política - foi candidato a vice prefeito em 1985.

Em 1990, saúde combalida, ele resolveu fazer sua despedida em grande estilo: pagou do seu bolso uma passagem de avião para a Itália, onde iria comentar para a TV Manchete seu último Mundial. Dizia que estava bem, que os médicos não sabiam de nada. Se fosse para morrer, que morresse vendo uma Copa.

Antes de embarcar para Roma, foi ao aeroporto do Galeão em uma cadeira de rodas, já que as pernas andavam fracas. Lá encontrou um antingo companheiro de redação, Sebastião Neri, que o viu daquele jeito e tentou ser simpático. "Como vão as coisas, João? Tudo Bem?"

- Porra, bem para caralho, estou de cadeira de roda só para zoar

Morreu alguns dias, depois de uma das semifinais. Vida que segue.



Escrito por Roberto Rockmann às 10h45
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Sócrates, Xico Sá e Jordan

Não vi a Copa de 1982. Com quatro anos de idade, mais babava e engatinhava que apertava o botão da tevê ou abria o jornal. Minha primeira Copa foi a de 1986, no México, quando comprei um caderno, anotei todos os jogos e fazia cruzamentos hipotéticos à la Paulo Vinícius Coelho. Fui um dos que apostaram no Maradona, mas choraram quando o galinho de ouro perdeu aquele penâlti contra a França de Michel Platini. Ao lado de Zico, havia um jogador que me chavama sempre a atenção, por usar uma fita branca no cabelo, parecer jogar acima do peso e por um toque de calcanhar que parecia fácil, muito fácil de ser dado. Ele andava no campo, dando a impressão de não correr, de não ter físico.


São paulino e com uma mãe corintiana, nunca me dei com o time do Parque São Jorge. Mas algo sempre chamou a atenção de mim naquele cara alto e magro. Quando o Santos, em 1984, ganhou do Corinthians, vibrei com o gol do Serginho Chulapa e com a  vitória do alvinegro da baixada, mas o choro de Sócrates me comoveu. Quando aparecia na tevê, dava entrevista ou escrevia na Carta Capital, eu ia atrás do que tinha a dizer.

Sócrates morreu há mais de um ano, faria nessa terça-feira, se estivesse vivo, 59 anos. Quando morreu, fui atrás dos textos sobre sua morte. Nenhum deles foi tão bom quanto os dois escritos por Xico Sá, companheiro de Cartão verde, de Mercearia, de bar, de cerveja. (Ambos podem ser lidos aqui e aqui).

Por longos anos, ouvia falar de Xico, ouvia falar de seus textos de futebol e de mulheres, mas sempre passava reto. Até que os textos do Sócrates me mostraram a minha ignorância: Xico Sá é hoje minha leitura diária, seja sobre futebol, seja sobre literatura, seja sobre mulheres. Poucos escrevem como ele; com sua melodia, suas tiradas, é único, tem impressão digital, hoje tão desgastada e ausente. Leitura obrigatória: http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/

------------------XXX-------------------

Michael Jordan não tem 11 títulos da NBA como Bill Russell, não fez 100 pontos em uma única partida como Wilt Chamberlain, nem encestou mais de 38 mil pontos como Kareen Abdul Jabar, mas nenhum jogador foi tão grande como o astro do Chicago Bulls, que completou ontem 50 anos de idade.

Michael Jordan.

Michael Jordan nasceu com o vírus da competitividade inoculado em todas suas hemácias. Vencer e ser o melhor eram seus objetivos maiores. Assisti a Jordan vencer seus seis títulos e o maior momento para mim foi o jogo contra o Jazz, em Utah, quando ele, com quase 40 graus de febre, mal se aguentando em campo, encestou a sete segundos do fim do jogo uma bola que daria o campeonato. Era o fim do carteiro Karl Malone. Era o ponto final de ouro da carreira do maior jogador de basquete da história.

Jordan tem histórias saborosas. Uma das melhores está no livro de Bill Simmons, um dos melhores textos sobre esportes no planeta, sobre a NBA. Jordan era tão competitivo que, ao descer de um avião, pagava para os maleiros despacharem suas malas antes de todos os outros. Nem ali era queria ser o segundo.

Mais sobre Jordan em http://www.guardian.co.uk/sport/2013/feb/17/michael-jordan-50-birthday-memories-years



Escrito por Roberto Rockmann às 16h41
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Onze aniversários parte 2

*

- Xu, quero ir embora do hospital

- Eu sei, vida, mas a gente tem de esperar o médico liberar

- Mas cadê o médico? Ele devia ter passado. São sete horas, não quero ficar a noite aqui

- Eu sei, picas, mas a gente precisa esperar

- Vai lá e vê se ele está no corredor

- Que eu falo se eu encontrar ele?

- Que eu quero ir embora

- Mas a gente tem de esperar

- Mas eu já estou bem, olha, até faço o quatro de pé

- Mas isso serve pra guarda de trânsito, não pra médico

*

- Dez anos!

- Dez anos!

- A gente que está casado há pouco tempo espera chegar assim

- E a gente que mal casou também

- Já que estamos no começo do jantar um brinde diferente: dez anos depois, quero pedir sua mão em casamento, na presença das testemunhas e de dois advogados. Você aceita?

- Aceitooooooooo

*

- Olha o seu caso é de urgência, não de emergência, mas, se não for para fazer a operação hoje, eu recomendaria que fizesse no máximo na segunda-feira

- Se fosse sua mulher, o que o senhor faria?

- Operaria amanhã de manhã

- Façamos isso então

A noite vira madrugada, a madrugada, manhã.

- Dormiu bem?

- Dormi

- Pronta para a cirurgia?

- Pronta

- Vou tomar Dormonid?

- Vai

- Mas será que eu vou dormir mesmo, doutor?

- Quer apostar?

- Conta até dez

- Um, dois...

- Viu?

- Nossa. Ela vai ficar bem?

- Vai

- Posso beijar a testa para dar boa sorte

- Pode, fica despreocupado, dá tudo sorte

Duas horas e meia depois, a maca chega.

- Xu?

- Estou bem

- E aí?

- Nossa, o dormonid é muito bom

*

Almoço num restaurante mineiro, meio dia e meia. Uma senhora e a filha na mesa ao lado, a senhora nos vê conversando e fala:

- Parabéns!

- Parabéns? Por quê?

- Que houve?

- Parabéns, porque vcs dois não param de conversar. O que eu vejo de casal que não fala nada, fica olhando pro teto e nem abre a boca! E vocês não para de conversar, falam e riem. Sou viúva há dez anos e eu falava muito com meu marido, muito mesmo, até hoje falo com ele. Parabéns mesmo! Continuem assim

- Esse elogio da senhora nunca mais esqueceremos



Escrito por Roberto Rockmann às 00h04
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Onze Aniversários parte 1

Fevereiro de 2001, zero grau, neve em Nova York

- Que é isso?

- Abra e veja

- Que é isso?

- Abre

Silêncio. Olhos vermelhos. Sorriso.

- Nossaaaa, não acreditooooo

- Que é esse papel atrás do anel?

- Leia

- Season, reason or lifetime?

- Lifetime.

*

Agosto de 2003, início de uma noite de inverno com cara de verão.

- Por que vc não foi me esperar na porta? Toda vez que eu chego vc vem na porta, mas hoje não veio, que aconteceu?

- Então, não pude...

- Nem se levantou do sofá para me dar um beijo e olha que hoje não são nem sete da noite, cheguei mais cedo  que em qualquer dia dos últimos dois que estou no jornal...

- Não posso...

- Que aconteceu? Machucou alguma coisa? Tá doente?

- Xu, estou com uma surpresinha?

- Surpresinha?

- Sim, olha ela...

Minuto de silêncio.

- Quê??? Uma gata??? Quem é essa???

- Ela é a Frida, uma himalaia de dois meses e meio que veio ficar em casa

- Não acredito, devo estar num sonho

- Não é sonho, não, pode pegar ela no seu colo, ela cabe com precisão, dá uma olhada

*

- Sabe de uma coisa?

- O quê?

- Quando eu saio de um almoço desses, eu fico com vontade de ganhar bastante dinheiro para levar vc a restaurantes como esse em Paris, Londres, Madri, Lisboa, Nova York

- Eu sei

- Eu só vou sossegar quando eu puder dar um dia de princesa para vc em Paris. Vc tira a tarde livre para compras e a gente se reencontra no Röbuchon com direito a Dom Pérignon

- Espero que um dia a gente faça isso 

*

- Xu?

- Sim, que é?

- Estou aqui na clínica para trazer a Frida

- Ah, é? Sim, e e estou aqui no trabalho, que houve? Ela não está bem?

- Ela está bem, mas tem um outro gato aqui para adotar...

- É, que gato?

- Ele é bonzinho. Será que a gente pode pegar ele?

- Como ele é?

- Característico.

- Característico como?

- Característico, vc vai ver.

- Como característico?

- É branco e preto, com olho amarelo, mas dizem que é bem inteligente

*

- Xu, escolhi

- Escolheu o quê?

- Oras, escolheu o quê, a mais nova representante da família Ruhe Rockmann

- Como ela é?

- Preta, ela vem nesse sábado, a Susan traz

- Como vai chamar?

- Não posso falar, mas já sei, vai ser um nome bem curto, como Gus e Frida

- Qual é?

- Só posso contar que é nome de atriz famosa

*

- Que susto a gente passou, hein!

- Ainda estou meio catatônico, sabe? Nossa, quando eu liguei a televisão e vi o jornal falando da queda do voo da Air FRance, fiquei sem palavras. Porra, a gente estava na mesma rota, com uma diferença de meia hora. Podia ter sido a gente

- Podia, mas um monte de gente atravessou o Atlântico quase no mesmo horário.

- Mmas agora a gente tem de aproveitar, é nosso primeiro dia em Paris e olha o sol que está

- A gente aqui no Senderens aproveitando essa vista da Igreja de Madeleine

- Pois é, vamos brindar à vida

- Vamos, assim a gente sempre tem um lugar para pensar quando estivermos felizes

*

- Xu...

- Sim.

- Vc se casaria de novo comigo?

- Só se vc entrasse mais rápido na igreja.

- Se casaria mesmo?

- Só se vc entrasse mais rápido e soluçasse menos

- Se casaria mesmo?

- Lógico que sim, quantas vezes vc quiser. Quer se casar de novo comigo?

- Aqui?

- Lógico

- Mas dessa vez sem borrar o rímel, tá?

- Tá



Escrito por Roberto Rockmann às 00h04
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Django

"Django Livre" tem o que há de melhor e o que há de pior no universo de Quentin Tarantino.

Ao lado do seu quarto de dormir, Tarantino tem uma sala onde ficam seus milhares de discos, cds e uma juke box onde ele pode escolher a qualquer hora músicas de que gosta. Antes de começar qualquer filme, é nela que Tarantino vasculha em busca de inspiração e da trilha sonora de seus longas, talvez uma das maiores impressões digitais próprias.

Tarantino tem um cinema em sua casa. As sessões são consagradas a alguns clássicos, mas, na maioria das vezes, ele busca mostrar aos amigos filmes B e C da década de 60 e 70. Há de tudo: slasher movies (filmes de horror), ficção científica, ação, kung-fu, comédias escancaradas, aventuras toscas. É esse o universo que o balconista de locadora nunca se esqueceu e que lhe serve de inspiração.

Quando concebeu "Django", Tarantino foi atrás dos spaghetti-western que amava ver na década de 1960. Um deles "Django", encarnado por Franco Nero, deu a inspiração para o filme recém lançado. Uma trilha sonora inspirada na blackxplotation da década de 1970 e nos faroestes deu o toque final.

Como em "Bastardos", Tarantino aqui exerce a revisão histórica. Um caçador de recompensas, interpretado pelo genial Christoph Waltz, logo no início do filme, vai atrás de um escravo Django, porque só ele reconheceria três foragidos da justiça americana, cuja recompensa pela cabeça, viva ou morta, é o que o Dr. King Schultz, dentista de fachada, quer.


Ao soltar Django, ele oferece uma parceria: os dois podem ser caçadores de recompensa por um tempo, Django ficará livre e pode ainda ter direito a um terço do que eles ganharem nesse tempo. "Vou matar brancos e ainda ser pago?", responde aceitando o personagem de Jamie Foxx. Os dois se embrenham nos EStados UNidos pré guerra de secessão em que a escravidão é norma, em que o negro é deixado de lado. Concordo com o crítico da Variety aqui, com essas cenas e imagens, Tarantino faz muito mais que "Lincoln", cutuca muito mais que Spielberg.

O caminho de Django e dr. Schultz às vezes enfrenta percalços. Um grupo de sulistas tenta os emboscar. Vestidos de capuzes brancos, como uma Ku-Klux Klan, eles se reúnem em assembleia, mas, em vez de discutirem como irão matar os dois, desembocam em uma discussão diferente: como é possível cavalgar e matar se eles não enxergam nada? Não era melhor eles deixarem o capuz para uma segunda vez? Não teriam de contratar alguém melhor para fazer os buracos nos olhos?

A parceria se mantém até o fim do inverno, quando Schultz propõe a Django que eles voltem ao Mississipi e recuperem Brun HIlde, a mulher de Django, ainda nas mãos de um fazendeiro impiedoso, que gasta horas assistindo a lutas até a morte de seus escravos.

Eles armam um plano para convencer o fazendeiro interpretado por Leonardo Di Caprio de soltar a escrava. Tudo vai bem até que o mordomo, papel de Samuel Jackson, intui que há algo de errado e que Django e a escrava se conhecem, que o sinhôzinho está sendo passado para trás. Aí o filme muda de tom e Tarantino perde a mão. Aí o que tinha tudo para ser seu melhor filme em quase 20 anos ingressa em um caminho longo, sinuoso.

Os 30 minutos finais do filme são excessivos, verborrágicos demais até para um cineasta verborrágico em excesso como Tarantino. Fica-se a impressão de que ele alongou a extensão para poder participar como ator e  poder ser explodido por um banana de dinamite. Consigo vê-lo às gargalhadas no set de edição ao fechar as cenas, mas "Django" perde o vigor.

"Django" não é o melhor Tarantino, mas é original e diversão garantida. Provocador, o filme retrata a escravidão, os negros e os brancos com uma visão crítica sutil deixando-se várias perguntas sem resposta.

O verborrágico Tarantino ama dizer que diretores não melhoram quando envelhecem. Ao contrário, vão piorando. Razão pela qual ele está preparado para apenas mais dois filmes. Mas o pior dele é melhor do que 99% do que sai em cartaz.



Escrito por Roberto Rockmann às 12h13
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O Mestre

"O Mestre", o mais recente lançamento de Paul Thomas Anderson, que chegou aos cinemas brasileiros na semana passada, é daqueles filmes difíceis de serem resenhados. Freddie Quell (em interpretação magistral de Joaquin Phoenix) é um ex-soldado americano que, terminada a Guerra, tem de voltar à civilização, ao Estados Unidos. Bêbado, tarado e instável, um dia ele tem de fugir de uma fazenda, depois de uma de suas misturas etílicas colocar um colega no leito de morte.

A fuga o leva a esconder em um barco, onde irá encontrar um homem que se intitula tudo - de físico a pensador. Chamado de "O Mestre" - encarnado com maestria por Phillip Seymour Hoffman -, Lancaster Dodd é a principal mente por trás de um movimento chamado "A Causa", uma doutrina científica inexplicável, ininteligível.

O acaso e o gosto pela bebida os une. Antes de ser lançado, o filme fez algum barulho, com jornalistas comentando que a trama seria sobre a Cientologia, aquela ciência que une o Tom Cruise, aliens e vidas passadas. Há algo da biografia de L Ron Hubbard, o fundador da seita, mas o filme não é sobre ela, mas sobre a amizade entre os dois homens, religião, ideologias.

Se em "Boogie Nights" a câmera percorria nervosa os cantos e em "Sangue Negro" o escuro e o claro se fazem presentes na fotografia, nesse aqui Paul Thomas Anderson ocupa a câmera com vazios, sejam de discurso, sejam do deserto, sejam da paisagem. O filme é denso, com uma essência difícil de captar pela narrativa não linear e conta com um timing diferente dos filmes de hoje em dia. Como disse o amigo que me acompanhou à sessão, "é muito bom, mas a gente não sabe por que gostou."

O Lucas, leitor desse blog, diz que "Boogie Nights" é um épico familiar em que Paul Thomas Anderson retrata a família pelo olhar do cinema pornô dos anos 70. O mesmo amigo gosta de dizer que a América foi feita por Plainviews e Elis, os dois principais personagens de "Sangue Negro". Na mesma linha, arriscaria dizer que os mestres e suas ideologias também construíram pilares da civilização ocidental.

Em outras palavras, quase no fim do filme, Lancaster diz para Freddie: "se vc conseguir viver sem um mestre, será único, viverá livre." A partir daí, vi o filme com um olhar diferente, o que me levou a algumas obras de Stanley Kubrick, cujo tema motor de sua cinematografia é o homem, o mal estar na civilização e a liberdade.

Tenho a impressão de que, daqui a 100 anos, quando historiadores forem revisar a história do cinema, o lugar de Quentin Tarantino estará fora de moda. Rodando sempre com o tema da violência em gêneros diferentes, as sacadas pop e o humor poderão ficar com cara de chapéu e calça boca de sino, deslocados no mundo de hoje. (volto ao tema quando vir "Django Livre"). Já o cinema de Paul Thomas Anderson poderá sobreviver e o colocar no olimpo dos gigantes.

O futuro do cinema americano está assegurado com ele, que reconstrói a America com ideas novas, criativas e originais. Que venham muitos novos filmes.



Escrito por Roberto Rockmann às 18h12
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Homeland

Num casamento no fim do ano passado, conversando com uma amiga jornalista maníaca por séries, dissemos que estávamos órfãos de Jack Bauer e que nenhum outro seriado tinha feito a gente ficar preso no sofá. Ela, tão fã de Bauer, que deu o nome de Kiefer a um dos seus gatos, ouviu nossas queixas e disse: "Homeland".


HomelandTVSeries.jpg

Depois de ter visto metade da primeira temporada da série protagonizada por Claire Danes, posso dizer: não foi à toa que a Fox desbancou a HBO no Emmy com essa série, uma das melhores coisas da TV americana nesses últimos dez anos. "Homeland" é um "24 Horas" sem tiros, torturas, ação do começo ao fim. É como se "West Wing" tivesse sido acelerado. "Homeland", criada pelas mesmas mentes por trás de Jack Bauer, é animal.

Na série, Claire Danes encarna o papel de uma agente da CIA com a missão de analisar os passos que cercam Abu Nazir, um terrorista que tudo leva a crer planeja um ataque aos Estados Unidos. No Iraque, Claire ouviu de uma fonte, antes de ela ser morta pelo exército iraquiano, que há um americano infiltrado nesse esquema antiamericano. Isso ocorre quase em simultâneo a um ataque de marines a uma base, onde eles encontram um soldado americano preso por quase uma década, onde sofreu torturas e abusos.

O soldado Nicholas Brody chega aos Estados Unidos com status de herói, mas Claire acha que ele, na prisão, mudou de lado e agora está contra seu país. Bipolar, Claire tem como missão desvendar a intrincada trama em meio a desconfianças, traições, mortes, pressões. É difícil ver uma atuação tão boa quanto a da atriz Claire Danes no papel da bipolar Carrie Mathison. Tão bom que Lisbeth Salander tem uma rival.



Escrito por Roberto Rockmann às 12h44
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A Garota

"As loiras são as melhores vítimas que existem. São como a neve virgem que mostra as pegadas sangrentas."

A citação de Alfred Hitchcock abre o filme "A Garota", co produção da HBO e BBC sobre a experiência da atriz Tipp Hedren, mãe da também atriz Melanie Griffith, nas mãos de um dos maiores mestres da sétima arte, que a dirigiu em "Os Pássaros" e "Marnie". Baseado em entrevistas com Tipp e com pessoas que participaram das gravações, "A Garota" traça um perfil sombrio de Hitchcock, desconhecido pela maioria.


Quando Tipp foi chamada para fazer um teste no escritório de Hitch, imaginou que fosse ser figurante em "Os Pássaros", que prometia ser o maior filme da carreira do cineasta inglês. Modelo, sem experiência nas telonas, ela chamou a atenção do cineasta, quando ele estava lavando louça. A loira que apresentava o comercial de tevê tinha tudo para ser perfeita no papel de estrela do seu novo filme que sucederia "Psicose".

O rosto novo, a loirice, o aspecto inocente cabiam como uma luva. Ela ainda era solteira. "Não gosto das casadas, porque engravidam e atrasam o trabalho", disse ele a um roteirista, ao explicar por que tinha selecionado aquela novata para o papel. Contratar a atriz era pouco. Hitch passou a ditar a cor do batom que ela usaria, os adereços que deveria pôr, os vestidos que deveria usar. Influenciaria até as medidas. Uma vez mandou um saco de batatas para a casa da atriz, com um curto bilhete: "Me coma".

A partir das primeiras cenas, a relação entre os dois começou a se modificar. Na volta de uma cena feita em Bodega Bay, quando compartilhavam o motorista, Hitch teria tentado beijar à força Tipp, que, quando o carro chegou ao seu destino final, saiu correndo. Ficou horas sem sair do quarto, mas voltou a trabalhar com o cineasta, que fez como se nada tivesse ocorrido. Parêntesis: fixação platônica de um homem que nunca lidou bem com o sexo (teria transado apenas 1 vez, na qual sua filha nasceu) ou manipulação da atriz?

O inferno não acabaria para Tipp. As cenas de ataque dos passáros a ela provocariam feridas reais na atriz, que ficaria cheia de cortes e hematomas, por acidentes inexplicáveis no set de filmagem, como se a realidade tivesse de superar a ficção, como se o cineasta quisesse que ela sofresse de verdade para que o resultado fosse o mais perto possível da vida.

Quando "Os Pássaros" saíram, o sucesso foi retumbante. Filmado em 3D, ele abriu um novo horizonte ao cinema e deu fôlego para Tipp se aventurar de novo com Hitch, que faria "Marnie" com ela. Novos problemas surgiram. Tipp quis respirar novos ares e trabalhar com outros diretores, mas Hitch não deixou. Ele a queria em outros filmes, mas ela não o queria de novo na sua carreira. Sua vida profissional virou um inferno, como ele prometera a ela, quando ela disse que queria filmar com outros cineastas.Por dois anos, ficou recebendo, mas sem trabalhar.

Depois de dois filmes, ela viveu o ostracismo que a perseguiria por décadas. Ninguém queria contratá-la.

A sorte de Hitch é que naquela época não havia processos por danos morais.



Escrito por Roberto Rockmann às 09h48
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Dez anos entre de vinho e comida, um desabafo

No início desse ano, quando estava em uma banca de jornais, folheando a "Gula", a "Gosto" e a "Adega", caiu a ficha: faz dez anos que comecei a me embrenhar nesse mundo da enogastronomia. A primeira porta aberta foi a "Gula", que hoje mantém o nome, mas, diante de sérias dificuldades financeiras, mudou toda a equipe, que abriu a rival "Gosto". Ao ler as degustações, a coluna do Guilherme Rodrigues, fui vendo que havia uma coisa além dos supermercados, que a gente podia comprar vinho das importadoras. Foi aí que entrei na minha primeira, a loja da Grand Cru, na alameda Tietê. Depois fiquei maravilhado com o extenso catálogo da Mistral e me lembro até hoje dos meus olhos ao entrar na primeira vez no Empório Santa Maria (naquele momento, a Expand tinha uma lista invejável, hoje eles nem sabem mais se importam Leflaive, Rousseau, Ramonet, Roumier e cia; além de terem acabado de perder Guigal para a Interfood). Hoje faz uns 5 anos que não compro nada na Mistral e na Expand.

A segunda porta foi a ABS. Fiz os cursos básico e avançado e participei de inúmeras degustações semanais entre 2005 e 2007. Batia carteirinha lá toda quarta-feira, bebi meu primeiro Vega Sicilia, minha primeira Bollinger RD, meu primeiro premier grand cru classé de Bordeaux, o Mouton 2004. Mas saí do barco quando vi que a ABS era um jogo de cartas marcadas, em que os sócios que patrocinam influenciam os rótulos que vão para degustação e que havia muito chocólatras lá. De lá, pelo menos, conservo as aulas particulares com o Nelson, diretor de degustação de lá, um dos mais sérios homens do vinho nesse país e, para mim, o maior especialista em Bordeaux que conheço.

Nesses dez anos, muitas coisas mudaram. A gastronomia ganhou cadernos nos jornais paulistanos, revistas de vinho ganharam espaço, blogs e sites invadiram o mundo cibernético. De um lado, profusão de (des)informação, de outro, leitores interessados em aval de terceiros. Um dos sites mais lidos sobre vinhos é o blog do Jeriel, que se assemelha a um Amauri Júnior. Inunda seu site com comentários todos os dias sobre os assuntos mais diversos, uma torre de Babel com notas. Dia desses, copiou um texto de um dicionário de vinhos sobre Volnay, mas colocou no assunto Vosne. É como confundir o Jardim Irene com o Europa. Jeriel, outro dia, foi convidado por uma importadora para viajar à Espanha. Tirou foto na frente da placa do Vega Sicilia, porque não conseguiu entrar. Acho que não preciso dizer mais nada. Mas é um dos cinco blogs mais acessados por aqui e criou o Clube do Jeriel, o que me deixa com a pulga atrás da orelha que queira se tornar um Robert Parker tupiniquim.

As críticas gastronômicas ganharam mais espaço. Foi-se o tempo em que o boa praça Saul Galvão dava as cartas; agora há vários, mas boa parte deles sofre do mal do Saul, para quem tudo estava ótimo. Se tudo está ótimo, as coisas vão mal, não? Nessa semana, o Josimar Melo, um dos melhorzinhos que há por aqui, resenhou na Folha o jacarandá, um recém aberto restaurante com um cardápio de cerca de dez pratos principais, que fica em Pinheiros. Na terça-feira, antes da publicação da crítica e sem saber que ele tinha ido ao restaurante, fui comer lá. Saí com a impressão de que é um restaurante razoável, desses esquecíveis que existem às centenas em São Paulo.

O Josimar resenhou quatro pratos principais, sendo que elogiou dois e criticou dois (o criticado foi um dos que comi), mas deu uma estrela ao restaurante. Fiquei sem entender o critério. São Paulo está tão mal assim entre os estrelados? Dia desses, fazendo hora no shopping, eu abri o guia de restaurantes do Josimar, que ele edita há anos. Achei que os textos eram iguais há anos também. O Antiquarius mantinha as três estrelas, sendo que desde 2008, pelo menos, o restaurante, que fechou as portas em dezembro, vinha numa descendente impressionante. Na última vez que fui lá, eles não tinham nem taça de bourgogne tinto, e a comida pesava dois quilos. O Pomodori, mesmo com a saída do Jefferson Rueda, mantinha sua alta cotação também.

Sempre dou uma olhada no Gastrolandia para saber o que abriu e fechou. Dia desses, li um texto dela sobre a Robert Sudbrack, de uma ida dela lá. O nome da chef (que me deu um baita presente de natal, ao usar meu recente texto sobre ela para dar aos seus funcionários em mensagem de fim de ano e que me mandou um email que será enquadrado no meu escritório) é desconhecido por aqui. O título do post foi "primoroso e lindamente delicado". Me deu a impressão de que se usa tanto adjetivo para tanta coisa, que, quando se chega a uma mesa fora da curva, não se tem mais adjetivo.

Desculpe, leitor, pela chatice e pela construção corriqueira de início de parágrafo, mas, dia desses, me deparei com um texto que seria do Ed Motta, elogiando um vinho de pinot noir brasileiro, que custa R$ 120 a garrafa e só é vendido em caixa de seis unidades. Ed se dizia estarrecido pelo Fulvia, de Marco Danielle, dizendo que tinha algo dos vinhos do DRC e que, para ele, era o melhor pinot fora da Bourgogne. Melhor mesmo que o do Williams Selyem, de Russian River, na Califórnia. No meu aniversário de 35 anos, agora em novembro, abri na casa de um amigo um Selyem 1997 e posso dizer que às cegas ele bate muito grand cru da Bourgogne (mas isso é tema prum outro post). Um amigo correu pra comprar a caixa, pagou R$ 720, abriu uma garrafa e ficou com vontade de arremessá-la na cabeça do Ed. Mas, advogado, preferiu mesmo é tomar cuidado com o que lê e continuar fiel à Cellar.

Além do Jeriel e do Ed, informação não falta na internet: há dezenas de blogs, confrarias, revistas, especialistas, sejam chocólatras ou não. Nesse fim de ano, depois de nove anos consecutivos colecionando as colunas de fim de ano de Jorge Lucki em que ele seleciona o que de melhor bebeu por aqui, eu deixei de lado o recorte do jornal e joguei no lixo. Ele continua sendo o melhor texto por aqui. Viaja, conversa, bebe e come, mas, desde uma dica de um restaurante da Borgonha em que ele achou maravilhas, e eu e a Tuka uma merda, eu o coloquei em sinal amarelo. E sua relação com a Mercovino está cada vez mais comercial. A lista dele é a mais profunda do mercado brasileiro, mas achei um tanto preguiçosa.

Sei lá o que eu quero dizer com tudo isso. Não sei se é um desabafo, se é a constatação de que faz falta revista de qualidade sobre enogastronomia por aqui, se faltam blogs de qualidade como existem lá fora. sei lá. Aqui não falo como jornalista, mas como leitor, amante da boa mesa. O que sei mesmo é que, dez anos depois de ter começado, a cada dia esse mundo me fascina mais. E que, uma década depois, eu confio mesmo em um seleto grupo de especialistas, sejam eles brasileiros, sejam eles estrangeiros. É um time formado por Roberta Sudbrack, com que tenho trocado emails e que nunca imaginei que soubesse tanto de vinho e literatura, Danio Braga, Nelson Luis Pereira (vinhosemsegredo) e meu guru mor da enogastronomia e maior especialista de Bourgogne de terra brasilis, Amauri de Faria. Fora daqui, o mestre Yoda, Clive Coates, o americano Stephen Tanzer (Wine access) e o francês Michel Bettane são nomes seguros. Gente que bebe e come bem. Cada um com suas idiossincrasias, relações comerciais e paixões, desafetos, mas todos portos seguros em um mar cada vez mais turbulento.



Escrito por Roberto Rockmann às 11h23
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O anúncio

Tudo parecia ir de vento em popa para Earvin "Magic" Johnson naquele ano de 1991. O Lakers tinha acabado de perder a final da NBA daquele ano para o Chicago Bulls, mas a equipe liderada por ele continuava como um dos mais fortes times da liga e o nome do armador era o número 1 da lista dos jornalistas para ser o principal rival de Michael Jordan, que já dava sinais de que sua mão tinha sede de mais anéis. A vida pessoal também ia bem e, depois de anos de aventuras amorosas, ele tinha se decidido casar com Cookie, que na cerimônia já mostrava a barriga da gravidez do primeiro filho do casal.

Em um exame clínico rotineiro, requisito para fechar o seguro do jogador mais valioso da equipe, o Lakers notou que havia um problema. Exames de sangue foram feitos e refeitos, pareceres de médicos foram pedidos. Mas os resultados eram sempre os mesmos: um vírus destruía o sistema imunológico do maior armador da NBA. Quando o time excursionava pelos Estados Unidos em sua pré-temporada, em Salt Lake City, quase vizinha à LA, Magic foi chamado para Los Angeles. À imprensa foi dito que ele precisava se recuperar de uma gripe. Aos mais próximos, informou-se que havia alguma coisa séria com a estrela. Mas mesmo Magic não imaginava o que escutaria do seu médico quando a reunião começou.

Sem rodeios, o médico foi direto. Ele tinha o vírus da HIV, contraído, provavelmente, por sexo sem proteção. Não poderia mais jogar basquete, talvez tivesse meses de vida. Não se sabia naquela altura se ele tinha contaminado sua mulher e seu filho que ainda estava na barriga de Cookie. Aquelas curtas frases soaram como uma bomba. O chão lhe faltava.

Pouco tempo depois, quando rumores na imprensa já anunciavam que ele teria AIDS, Magic resolveu jogar limpo: em 7 de novembro, anunciou que iria se aposentar do Lakers, que por sua vez aposentaria a camisa 32.

Essa é a história do documentário "The annoucement", que está passando agora nos canais ESPN. Com entrevistas com o jogador, amigos pessoais e jogadores, ele traça o retrato daqueles dias, as reações das equipes e rivais. Há histórias saborosas como os bastidores da reunião da direção da NBA com os donos dos times para avaliar a possibilidade de retorno de Magic em 1992/1993, depois de ele ter jogado as Olimpíadas. Há a reação comandada pelo carteiro Karl Malone que expressou seu temor de jogar contra Magic na Liga. "Na Olimpíada, ninguém fez jogo duro com ele, mas na NBA teria medo de fazer jogo duro com ele e me infectar". Reação que enterrou o sonho de retorno de Magic.

Imperdível para quem gosta de esportes e bastidores.

Parêntesis: a história ainda rende. Recentemente, Magic brigou em público com Isiah Thomas, o grande craque dos Pistons da década de 1980, que teria na década de 1990 dito a várias pessoas que não acreditava que Magic teria sido infectado por sexo sem proteção com mulheres, mas, sim, com relações homossexuais. O que azedou de vez a relação entre os dois, mesmo quase duas décadas depois do anúncio do armador de Lakers.



Escrito por Roberto Rockmann às 14h41
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O fatwa de Salman Rushdie

No dia dos namorados de 1989, fevereiro no hemisfério Norte, a vida do escritor Salman Rushdie virou de cabeça para baixo. O silêncio daquele dia foi quebrado com uma ligação de uma repórter da BBC que tinha obtido seu número particular e que agora queria resposta dele para uma pergunta que o atormentaria por longos anos. "Como o senhor se sente ao saber que foi sentenciado à morte pelo Aiatolá Khomeini?"


A publicação de "Versos Satânicos" em 1988 tinha contrariado vários muçulmanos e seguidores do Corão pelo mundo afora. Protestos aqui e acolá tinham irrompido da Índia ao Paquistão, até que um filho do ditador iraniano tinha dito ao pai, em seu leito já combalido, que o livro tinha de ser banido e seu autor punido exemplarmente pela blasfêmia.

A escalada da violência tinha feito o governo britânico ordenar que Rushdie abandonasse seu endereço em Londres e mudasse frequentemente de CEP. No início, se julgava que em poucos dias as ameaças cessariam. Mas, com o tempo, viu-se que não. O fatwa incitando a morte do autor era de verdade e seria um problema longo. Rushdie estaria a perigo por longos anos. Razão pela qual os policiais foram diretos. Ele seria um homem em fuga até que o fatwa sugerindo guerra declarada ao escritor fosse suspensa. Portanto, além de não poder ter endereço permanente e ter de ver seus familiares sempre em condições pré-estabelecidas, teria de criar um novo nome.

Sentou-se à mesa. Riscou à caneta os nomes dos seus escritores preferidos e ficou fazendo combinação. Até que uma chamou sua atenção, por parecer real. Juntava Joseph, do escritor que deu vida ao horror do imperialismo europeu em "Coração das Trevas", e Anton, primeiro nome do dramaturgo de "Três Irmãs".

Joseph Anton, o pseudônimo de Rushdie, viveu por pouco mais de uma década, desaparecendo quando a declaração de morte foi suspensa pelo governo iraniano. A história desse período de exílio em vida saiu agora em livro. "Memórias de Joseph Anton" é um dos melhores livros desse ano que termina.

Em tempo: no livro que culminou com sua perseguição, Rushdie conta a história de Gibreel Farishta and Saladin Chamch, dois atores indianos de origem muçulmana. Em um acidente de avião que vitima toda a tripulação e passageiros, apenas os dois sobrevivem por um milagre. Um tem sua personalidade orientada por Deus, o outro, pelo Diabo. Aí a história se desenrola. Os versos que dão o título à obra são tirados de estudos sobre as profecias muçulmanas do profeta Muhammad. Em alguns estudos há interpretações sobre alguns versos em que aparecem dúvidas que persistiram sobre o profeta, dúvidas essas que na versão original dos textos religiosos foram suprimidas.



Escrito por Roberto Rockmann às 20h42
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Woody Allen, um documentário

"Woody Allen, um documentário", de Robert Weide, que está passando agora em um dos canais HBO, é um baita filme. Em pouco mais de duas horas e com acesso a material difícil e inédito, Weide decompõe as mais de cinco décadas de carreira do diretor, dramaturgo, ensaísta, roteirista. O trunfo do diretor é o acesso pessoal e direto que teve a Woody, que cedeu imagens de uma entrevista que ele próprio fez com sua mãe na década de 1980, quando ela discute a educação que deu a seu filho. Minutos depois, se vê uma entrevista de Woody a uma televisão, também na década de 1980, quando ele diz que fez boxe para poder lidar com sua mãe.


Allen escancara seus arquivos e mostra como é seu processo criativo. Datilografa até hoje na mesma máquina de escrever alemã, comprada por US$ 40, que é seu braço esquerdo e direito há mais de 40 anos. Não usa computador ou tabletes. Usa uma tesoura para juntar pedaços aqui e acolá de textos que escreve e mostra como trabalha para a câmera.

As entrevistas com amigos, colaboradores, produtores se sucedem ao ritmo dos filmes que Allen fez. Há confissões como a quando Allen terminou "Manhattan", um de seus maiores sucessos de crítica e público. Não gostando do filme, ele sugeriu ao estúdio que não colocassem nos cinemas. Ele não gostou, estava inseguro. Se eles topassem, ele faria o filme seguinte de graça. Não toparam, o filme ganhou uma estatueta.

Ao longo das pouco mais de duas horas de filme, pode-se conhecer mais sobre o judeu nova iorquino obcecado pela morte e pela vida, pelos relacionamentos amorosos e pela relação opressiva com sua mãe. O universo de Allen está em constante expansão. No fim da década de 1950, a Cahiers du Cinéma cunhou uma expressão - auteur du cinéma. Em um mundo pós guerra, em que a tecnologia ganhava espaço, era importante dizer que a sétima arte era técnica, mas que havia autores por trás dela. François Truffaut, nesse contexto, ajudou a dar outra dimensão a Alfred Hitchcock, outrora visto como um manobrista de esfíncteres.

Allen é o mais longevo autor de cinema dos Estados Unidos, com alguns dos melhores filmes da história, como "Annie Hall".Ninguém produziu tanto com tão alta qualidade. E tudo indica que o caminho ainda será longo.



Escrito por Roberto Rockmann às 10h10
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Quando os militares invadiram os gramados

 

De terça a sexta, às 20 horas, a ESPN Brasil vai fazer um mergulho na relação entre regimes militares e futebol com “Memórias do Chumbo - O Futebol nos Tempos do Condor”. Em quatro episódios, cada um com cerca de uma hora de duração, o jornalista Lucio de Castro vai esmiuçar como os militares usaram o esporte a seu favor nos países sob a Operação Condor e como o futebol serviu de válvula de escape para milhares de pessoas protestarem contra o regime de força.  Com entrevistas (uma delas com o uruguaio Eduardo Galeano, grande pensador e apaixonado por futebol) e documentos selecionados em arquivos, o documentário irá em cada episódio retratar um país do Cone Sul: Argentina, Chile, Uruguai e Brasil.

No Brasil, um dos focos é como o governo do general Médici controlou jogadores. Lucio irá mostrar que a saída de João Saldanha do comando da seleção brasileira não mudou em nada a rotina dos órgãos de segurança da ditadura militar. Eles mantiveram o João sem Medo em rédea curta. Em seu blog , o jornalista comenta o o que apurou sobre João Saldanha e os militares.

“O regime não pagou para ver. Independentemente de seus erros e acertos no comando da seleção, a cochilada do regime ao deixar o homem filiado ao Partido Comunista e destemido no comando teria de ser resolvida antes da Copa. E foi. Não só isso. Depois dessa cochilada, a vigilância na seleção se intensifica tremendamente.

No front mexicano daquela cobertura de 1970, José Trajano lembra-se das dificuldades daquela cobertura em seu depoimento. E da tristeza do João. "Quando a gente foi pro México, tinha o credenciamento da Copa e o da seleção brasileira. Não podia entrar no hotel simplesmente com o credenciamento da copa. Tinha que passar no crivo dos militares pra cobrir a seleção brasileira. Deixava documento. O João Saldanha foi impedido. Foi pela BBC e não deixaram entrar. Isso magoou muito o João. A gente notava ele muito triste, muito abatido".

 

O depoimento de João Saldanha Filho é definitivo. "Me lembro do dia que papai foi demitido. Ele tomou um porre. Ele queria que a gente ficasse abraçado. Foi um momento muito duro mas a gente percebia nele vontade de passar por cima disso".”



Escrito por Roberto Rockmann às 11h48
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Sobre a Borgonha

1) O mestre Yoda da Bourgogne, mr. Clive Coates, com mais de cinco décadas de experiência na região, acaba de lançar suas notas para a histórica safra de 2009, considerada por ele no nível das de 1999 e 2005. Talvez 2010 supere 2009... Coates publica seus comentários apenas quando a safra completa três anos. Interessante é comparar seu nível de exigência e seu gosto com os outros críticos.

http://www.clive-coates.com/news/2009-vintage

  
2) Jasper Morris, comprador de vinhos da importadora inglesa BBR, lançou recentemente o primeiro Relatório Anual sobre a Bourgogne. Morando há anos na região com seus gatos e sua esposa, Morris irá fazer relatórios todos os anos, com  base na safra mais recente, com amplos comentários e notas sobre os vinhos degustados pela importadora. Morris, que recentemente lançou “Inside Burgundy”, um dos melhores livros sobre a terra da chardonnay e do pinot noir, abriu de graça para quem tem alguns dos gadgets da Apple o download do primeiro relatório. A partir do próximo ano, ele deverá ser pago.

http://bbrblog.com/2012/11/19/inside-burgundy-the-ibook/

 



Escrito por Roberto Rockmann às 11h44
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Don´t you forget about me

A música do Simple Minds, que se tornou hino por conta de "Clube dos Cinco", um dos melhores filmes dos anos 80, é o título de um documentário sobre John Hughes, o brilhante roteirista e diretor americano que criou Ferris Bueller, deu vida à família Griswald e mostrou com o "Clube dos Cinco" que filme para adolescente podia ser feito com bons diálogos e boa história.

O documentário, que está agora passando na HBO, é fruto de um TCC de quatro estudantes americanos que tentam entender por que os filmes de Hughes continuam tão atuais e por que ele se desligou do mundo de Hollywood, mesmo com uma fila de interessados em filmar um roteiro seus. Desde o início da década de 1990, quando ajudou o sucesso de "Esqueceram-se de Mim", Hughes sumiu.

O filme traz entrevistas com vários atores que ficaram conhecidos por participarem dos filmes de Hughes. Pode-se ver como Cameron, o melhor amigo de Ferris Bueller, está, como os anos passaram para Allyson e para o rebelde John Bender. Vale mais pela curiosidade do que pela complexidade.

É um bom passatempo, mas peca em vários detalhes. Não há entrevistas com os principais atores lançados por Hughes. A saber: Mathew Brodderick, Molly Ringwald e Anthony Michael Hall. Não há várias explicações da complexidade de Hughes que deixou de falar com sua estrela. A razão? Difícil ainda de saber. Talvez o encanto de Hughes por Molly tenha se desfeito, quando a estrela fora dos padrões normais começou a sair com Hall, seu parceiro das telas. "Acho que ele não gostou", disse ela em entrevista para a imprensa americana.

Hall seria a escolha para ser Fereis Bueller, mas o ator suspeita que entrevistas na imprensa dizendo que ele queria trabalhar com outros diretores azedaram o clima com Hughes, que foi atrás de Mathew Brodderick. Não há nada também sobre outro episódio que pode explicar a relação de Hughes com os grandes estúdios de Hollywood. Na metade da década de 80, fez o roteiro de "A Garota de Rosa Shocking". Escreveu duas versões de final, mas ficou puto quando viu que o estúdio tinha decidido fazer com que Molly Ringwald ficasse com o garoto rico e não com seu amigo nerd.


Um ano depois, Hughes resolveu produzir "Alguém Muito Especial", no qual dá o troco: o personagem de Eric Stoltz faz de tudo para ficar com a garota famosa e rica, mas no fim deixa-a para ficar com a amiga nerd.

Aos que quiserem saber mais sobre Hughes e sobre os detalhes que não estão no documentário, basta ler essa ótima matéria da Vanity Fair com entrevistas com a família Hughes e com atores e amigos dele, feita logo após o infarto fulminante que o matou há 4 anos. Leia aqui. Hughes parou de trabalhar para Hollywood, mas nunca parou de escrever. Pena que deixou no caminho milhões de órfãos.



Escrito por Roberto Rockmann às 11h16
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