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Tudo e Nada


Atividade Paranormal

Parece piada, mas não é, ou talvez seja, vai entender.

Saiu na reuters hoje e está aqui. O governo italiano estuda tirar "Atividade Paranormal" de cartaz em cinemas de algumas cidades italianas.

A razão? Em Nápoles, os serviços de emergência receberam dezenas de ligações de pessoas assustadas depois de terem visto o filme.Queixaram-se de palpitações, ataques de ansiedade. De acordo com o Corriere dela Sera, uma garota de 14 anos entrou em estado de choque ao ver o filme e precisou de oxigênio dentro da sala de cinema.

Grupo de defesa de consumidores ameaçam entrar na justiça para evitar que menores de 18 anos assistam ao filme.

Será mesmo que o filme é bom a ponto de assustar mesmo?



Escrito por Roberto Rockmann às 09h38
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Brock anos 80

1. Nós Vamos Invadir sua praia. No início dos anos 80, o rock brasileiro tinha forte sotaque carioca. Roger Rocha Moreira nessa época não tinha medo de avião, ainda entra num para fazer shows. Gostava de compor e ganhar dinheiro. O Ultraje a Rigor invadiu a praia carioca com um cd de hits que até hoje são conhecidos de milhares de pessoas com 30 e poucos anos. Inútil, Rebelde sem Causa, Independente Futebol Clube e Ciúme são alguns dos clássicos.

2. Vivendo e não aprendendo. Era metade dos anos 80, Nasi ainda se dava bem com a banda. Envelheço na Cidade, Dias de Luta, Gritos na Multidão e Pobre Paulista, estas gravadas ao vivo na Broadway, e Flores em Você (trilha sonora da novela das oito da Globo) colocaram o Ira! nos primeiros lugares.

3. Cabeça Dinossauro. Terceiro disco dos Titãs, gravado em um momento em que alguns integrantes do grupo tinham sido presos antes da gravação, veio pesado em relação aos outros. Polícia, Bichos Escrotos, Família são algumas das músicas.

4. O Tempo não Pára. Quarto álbum solo de Cazuza, traz Codinome Beija-Flor, Faz Parte do Meu Show, Exagerado, O Nosso Amor a Gente Inventa, Ideologia, Vida Louca Vida.

5. Que país é este 1978/1987. Na segunda semana de dezembro de 1987, chegou às lojas esse disco do Legião Urbana. Não entendo nada de ópera, mas Faroeste Caboclo é uma ópera rock brasileira. Com 159 versos, a música de 9 minutos e alguns segundos tem diversas nuances. Aqui vale citar Artur Dapieve, que em seu "Brock, o rock brasileiro dos anos 80", ótimo livro sobre o rock dos anos 80, diz "se Bob Dylan fosse brasileiro, Hurricane seria Faroeste Caboclo".



Escrito por Roberto Rockmann às 09h23
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Mais peixe banana

Um ótimo texto sobre Seymore Glass, o protagonista de um dos melhores contos de todos os tempos - "Um dia Perfeito para o Peixe Banana".

Aqui.



Escrito por Roberto Rockmann às 09h07
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Fim de papo

Mestre José Trajano, de extremo mal humor ontem, no Linha de Passe:

"Entre a paradinha e a paradona não existe diferença. Estou a favor do talento. Ter 18 anos e fazer um goleiro como o Rogério cair de bunda no chão para o lado errado não é fácil. É talento, confiança. Isso é antiético?"



Escrito por Roberto Rockmann às 08h19
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O Homem do Vinho

Em 1977, Neal Rosenthal resolveu dar uma guinada de 180 graus em sua vida e na da mulher: abandonou seu terno e gravata, fechou o escritório de advocacia e resolveu vender vinhos em Nova York, com uma proposta diferenciada. Não venderia qualquer garrafa, daria preferência a duas regiões que despertavam sua paixão de apreciador: Borgonha e Piemonte e seus vinhos de terroir, de pequenos produtores.

Importar vinhos não é uma tarefa fácil. Rosenthal aprendeu as minúcias e as paixões que envolvem esses homens às vezes brutos, às vezes sentimentais que guardam suas relíquias e só as vendem se tiverem confiança na outra ponta.

Uma de suas primeiras viagens foi à Borgonha, mais especificamente à pequena Chambolle Musigny, região que rende alguns dos vinhos mais femininos da Côte D´Or, onde se reuniu com Gaston Barthod, cujo domaine Barthod hoje está nas mãos de sua filha, Ghislaine (não chega ao Brasil).

Chegando à casa de Gaston no fim da tarde, Rosenthal foi convidado a entrar. A casa estava toda as escuras. Gaston era da geração segunda guerra mundial e vivia numa França que ainda convivia com os choques do petróleo: luz não era artigo de luxo. Foi convidado a experimentar vinhos feitos por Gaston, que conduziu um pequeno teste com Rosenthal para saber se aquele importador iniciante realmente sabia o que estava bebendo.

Abriu três garrafas às cegas e foi testando os conhecimentos de Rosenthal. Depois foi abrindo safras para instigar ainda mais Rosenthal. Terminada essa parte, voltaram para a casa e Rosenthal abriu duas garrafas especiais para Neal experimentar. Havia uma prova: o importador tinha de acertar ano e garrafa. Só assim Gaston daria o sinal verde. Neal errou por pouco na primeira, de 1959, mas acertou na segunda. Gaston sorriu. Tinha achado seu caminho para os Estados Unidos.

Com essas e muitas outras boas histórias da Itália, França e Estados Unidos, "Vinhos Raros, Artesanais e Raros", de Neal Rosenthal, é uma ótima leitura que se lê em poucas horas, apesar da tradução horrível. Só para ter uma ideia no original o título é "Memoirs of a Wine Merchant".

Em tempo: Rosenthal continua no mercado de vinhos e tem a madrose, uma das melhores importadoras de vinhos finos dos Estados Unidos.



Escrito por Roberto Rockmann às 07h53
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Guerra ao terror

Há duas maneiras de se olhar "Guerra ao Terror", o principal concorrente de "Avatar" na briga do Oscar. Uma é analisá-lo sem o impacto da crítica. A outra é usando a crítica.

Diretora de filmes de ação reconhecida pelo talento e ex-mulher de James Cameron, Kathryn Bieglow resolveu se aventurar em um filme de guerra, depois de ler algumas reportagens do jornalista Mark Boal, que acompanhou por alguns meses um esquadrão anti bombas atuar em ação. Chamou Boal para fazer o roteiro. Dessa interação nasceu "Guerra ao Terror", no original "Hurt Locker".

A história se passa no Iraque, acompanhando três soldados - James, o sargento e líder, Sanborn e Ellbridge -, cuja missão é desarmar bombas. Uma tarefa inglória em um país despedaçado, em que os americanos são mal tratados e em que o inimigo pode estar em qualquer beco ou portar as bombas em seu próprio corpo.

Amante de heavy metal, James é um sargento com comportamento destrutivo, negligente em relação à sua segurança e sempre disposto a arriscar a sua vida para desarmar as bombas. Não é à toa que, depois de desarmá-las, guarda os componentes em uma caixa. A guerra é uma droga para ele, como a citação que abre o filme.

Ellbridge é um jovem soldado que viu um colega morrer ao seu lado e que sofre internamente pelas decisões cotidianas no inferno de Bagdá. Sanborn é mais experiente, confronta o estilo negligente de James, e não vê a hora de se livrar do coturno. Quando James chega, faltam menos de 30 dias para que o pelotão possa voltar para casa. Voltarão sãos e salvos? Essa é a pergunta que conduz a trama do ótimo roteiro e da excelente direção.

"Guerra ao Terror" é muito bom. Eletrizante, com cenas de tensão em meio ao desarme de bombas, prende a atenção. Não tem tom patriótico, nem meloso. É seco, como todo filme realista e bom de guerra, e bem contado do início ao fim. Como todo bom filme, tem ótimas cenas, como a de James, de volta para casa, confuso ao ter de escolher o cereal que sua mulher pediu; ou a cena em que James explica ao filho, recém nascido, o que gosta de fazer. Essa é a primeira maneira de analisar o filme.

A segunda é usando o oba oba que tem cercado o filme desde seu lançamento em outubro nos Estados Unidos. Nos últimos meses a crítica estrangeira tem enchido o filme de elogios. Críticos franceses falam que é um filme sem falhas, americanos dizem que é uma obra-prima, ingleses avisam que é a melhor coisa em anos nas telas. O filme concorre a quase dez oscares. Só se fala dele. Calma lá.

O filme é bom, mas, sinceramente, tem dificuldades para competir com "Platoon", "Amargo Regresso" (extremamente subestimado e cada vez que vejo melhor), "Pecados de Guerra", "Soldado Ryan", "Além da Linha Vermelha. Se não supera a altura desses, não chega nem aos pés de "Nascido para Matar", nem de "Apocalipse Now" - o filme de Kubrick tem os melhores 45 minutos iniciais sobre guerra, e Copolla fez um filme imortal que chegou às telas em 1979.

Resumo da ópera: "Guerra ao Terror" é muito bom, mas não vá achando, como eu fui, que é um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos. Porque não é. Como passatempo dá de dez a zero em Dan Brown e em 99% dos filmes em cartaz hoje no circuito comercial e não faz feio a um episódio de Jack Bauer, mas não é nenhuma Brastemp.



Escrito por Roberto Rockmann às 19h04
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Símbolo Perdido

Dan Brown e seu mais famoso personagem estão de volta.

Dessa vez a história não se desenrola no Vaticano ou na ponte aérea entre Londres e Paris, mas em Washington. Não estamos à volta com segredos seculares da Igreja Católica nem com os Iluminati, nem com Leonardo Da Vinci e a linhagem escondida de Maria Madalena, mas agora temos de entender segredos misteriosos ligados à Bíblia e à ciência noética. Lá era o verbo, era Jesus, aqui é a palavra, é a bíblia, a necessidade de interpretar com outros olhos, de entender o místico, de medir o que não é visível.

Que os fãs de Robert Langdon não se preocupem: o albino de "Código da Vinci" não voltou, mas um rapaz tatuado dos pés às cabeças é tão cruel quanto Silas e - melhor (pelo menos para os fãs) - tem muito dinheiro e contatos, peças essenciais para Langdon e sua companheira correrem, suarem e quase serem mortos ao longo das 500 páginas.

Escritor da era Google, Dan Brown continua igual: vc vai poder descobrir sobre a ciência noética, sobre os segredos no Capitólio e pinturas de 500 anos atrás com quadrados mágicos. Pode dar o google, ele escreve isso para vc ir atrás.

A história dá samba, mas de uma nota só. É um bom passatempo, mas, em 60 segundos, posso citar, pelo menos, dez passatempos melhores e mais baratos que R$ 32.

O livro não é ruim, mas a fórmula parece cansada, não surpreende como "Código da Vinci", bate na mesma tecla de "Anjos e Demônios". É leitura previsível. A impressão é que Dan Brown escreve sempre o mesmo livro, mudando só a cidade em que se passa a história, a trama básica, os nomes dos pintores, o período histórico e o nome dos personagens, com exceção do professor de simbologia.

Escrever o mesmo livro três vezes? Aí é coisa para gênios, não para gênios da era Google.



Escrito por Roberto Rockmann às 08h20
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Bola da vez

Três milhões de euros por minuto estão saindo da bolsa portuguesa nos últimos três dias. Lisboa acumula perdas de 5 bilhões de euros com os investidores preocupados de que a situação fiscal do país começa a ficar insustentável. O risco de Portugal no mercado já subiu 138% nesse ano. Um pouco mais distante, no Mediterrâneo a coisa também é complicada: o FMI já abertamente diz que a Grécia do jeito que está não vai muito longe, ou seja, precisará de ajuda.

Com desemprego de 20% e um setor imobiliário tão frágil como o americano, a Espanha também preocupa. Como conseguirá resolver o buraco do orçamento? Como integrante da União Europeia, não pode desvalorizar sua moeda para reduzir o endividamento público, o que só poderia ser obtido por aumento de impostos ou corte de gastos. Como fazer isso com desemprego de 20%, com a economia em frangalhos e a decepçao estampada nos rostos?

A lusitana roda. Os PIGs europeus estão à beira do precípio, vivem uma situação como a nossa de 20 anos atrás. É a segunda fase da crise econômica iniciada em 2008. Sem pires, a profecia do mercado se realizará e os três países poderão se ver em uma situação jamais imaginada.

A crise não acabou, mas Espanha, Grécia e Portugal terão de tomar medidas duras e rezar para todos os santos. Pelo jeito, vão sucumbir à força dos mercados.



Escrito por Roberto Rockmann às 08h22
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Oitavo dia

Ótima matéria no caderno de fim de semana do Valor, de José Castello, sobre J. D Salinger, com alguns dados que desconhecia.

"Quando os originais de "O Apanhador no Campo de Centeio" foram enviados à gráfica, em 1951, seu autor, J. D. Salinger - morto no dia 28, aos 91 anos - comprou uma briga com o editor, Eugene Reynal. Ele achava que sua foto, estampada na quarta capa, estava muito grande. As relações entre os dois eram tensas. Semanas antes, depois de ler pela primeira vez os originais, Reynal os enviou para seu editor de livros didáticos, que não soube o que fazer com eles. O próprio Reynal disse a Salinger que gostara do romance, mas não entendera muito bem se Holden Caufield, o protagonista, era um gênio, ou um louco - e se uma figura ambígua assim era adequada aos leitores jovens. Furioso, o escritor pediu os originais de volta e só a muito custo mudou de ideia. Agora surgia o problema da fotografia, grande demais, pensava ele, ameaçando a importância do próprio livro." (...)

"Agora, com a morte de Salinger, todos se perguntam por que "O Apanhador" até hoje nos embriaga. Ainda mais: por que, com o passar dos anos, em vez de se tornar uma narrativa datada, ele nos apaixona ainda mais? Uma resposta pode estar no belo e enigmático título, inspirado em versos do poeta escocês Robert Burns (1759-1796). A história é conhecida, mas não custa repeti-la. Em uma poesia, Burns imagina um vasto campo de centeio, onde crianças brincam. O poeta se posta à beira do campo, apanhando as crianças que caem. É uma espécie mundana de anjo da guarda. Não habita o grande campo (o paraíso), mas a sua borda - ali onde a outra ponta, o inferno, se anuncia. Vive entre dois mundos, e é essa posição limítrofe que lhe dá mobilidade e força."

"Em seus versos, Burns anuncia a chegada do poeta romântico, personagem surgido no século seguinte ao seu, o XVIII, que suspeita das luzes e da razão, propagadas pelo Iluminismo, preferindo um mundo ambíguo, em que o amor e a morte, a fragilidade e a força, o tédio e a emoção, o medo e a bravura se misturam. Século, portanto, difícil de ver, de delimitar, de registrar. Fluido, opaco, ele escapa à mente lógica dos racionalistas. "

"Não foi por acaso que Salinger recorreu a Burns para encontrar o título de seu livro. Percebeu na figura do apanhador uma metáfora perfeita para seu Holden Caufield, um rapaz sensível e bruto, ousado e covarde, sincero e mentiroso que, aos 16 anos, expulso de um internato, retorna derrotado para casa. A tradição crítica diz que Caulfield é um "desajustado". Muito bem: pode até ser. Resta pensar: desajustado em relação a quê?"



Escrito por Roberto Rockmann às 08h15
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Esclarecimentos

Às pessoas que me perguntaram cabe esclarecer sobre o post abaixo "Quando a realidade supera a ficção" que:

1) não é ficção; aconteceu de fato com um amigo; ipsis literis
2) há duas inverdades propositais na história, os nomes dos personagens são falsos e a cidade em que ocorreu não é Ribeirão Preto. No mais, absolutamente tudo verdadeiro.



Escrito por Roberto Rockmann às 20h22
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Quando a realidade supera a ficção

Ele tinha 30 anos quando a viu pela primeira vez. Ela tinha 28 anos, mas não nunca se lembrou dessa primeira vez. Ele ficou tão fascinado por aquela lourinha que viu no bar que gelou. Perdeu a coragem de ir até a mesa onde ela estava sentada com as amigas conversando. Trancou-se no banheiro, pegou o telefone e quis saber do irmão como poderia se apresentar a ela. O irmão deu algumas dicas, ele estufou o peito e saiu do banheiro. Quando olhou ao redor, não a viu mais.

Conversou com garçons, olhou na calçada, falou com o senhor que passava a máquina eletrônica de cartão, mas nenhum se lembrava dela. Havia várias outras loirinhas no mesmo lugar, na mesma hora, e nem nome ele sabia. Queria demais. Era uma agulha no palheiro. Pensou em colocar faixas perto do bar, mas só ganharia a chave para o manicômio. Devia esperar e contar com a sorte. Achou que o seu suor também podia ajudar: toda sexta-feira batia ponto naquele barzinho e ficava à espera dela.

A sorte só bateu à sua porta seis meses depois daquela primeira vez. Em outro endereço. Viu-a em outro bar. Mais uma vez gelou. Pela segunda vez, trancou-se no banheiro. Era a mesma loirinha. Ligou para o irmão e pediu socorro. Queria ajuda para se aproximar. Achava que, se chegasse à mesa e falasse que a tinha visto seis meses  antes e que ela não saía de sua cabeça, ela ia achar que ele a estava perseguindo e era um maníaco sexual. O irmão disse que chegaria em minutos; que ele ficasse calmo. Quinze minutos depois, ele chegou, esfriou a cabeça do irmão, que agora estava pronto para se apresentar. Quando saíram, a surpresa: ela e suas amigas tinham saído.

Tal como em Marx, a história se repetia, como farsa da segunda vez. A obsessão, no entanto, não decresceu. Agora tinha, além do bar original, outro endereço para percorrer com os olhos todo o fim de semana. Mas a imagem da loirinha continuava teimando em não aparecer em sua retina, até que um ano depois da primeira vez que a tinha visto, o sonho se fez presente.

"Paulo", disse ele, sorrindo. "Mikaeli", disse ela. Nome diferente, mas que ele nunca esqueceria. Contou a sua "perseguição" a ela, que gostou do que ouviu. Ficaram juntos aquela primeira vez. Em dois meses, já namoravam. O casamento estava marcado para dali um ano.

Quando estavam noivos e terminando as escolhas do casamento, o irmão de Paulo ligou para ele. Disse que precisava conversar. Os irmãos foram almoçar. Daniel disse que Paulo devia ficar atento a Mikaeli. "Por quê?", respondeu o irmão mais velho. O caçula disse que estava preocupado, muito preocupado. A namorada de Daniel trabalhava em uma fábrica e num happy hour tinha ouvido um colega de escritório chamado Jorge se gabar de peripécias amorosas com uma tal de Mikaeli, que ainda trabalhava numa importadora de comidas e bebidas.

Ribeirão Preto é uma cidade grande, mas Mikaeli era um nome muito diferente, tão diferente que só tinham ouvido uma vez. Não havia tantas importadoras. Daniel disse que Paulo tinha de ficar olhos abertos. Daniel achava que não era coincidência, que não havia duas Mikaeli e que a sorte tinha batido à porta de Paulo. Sem saber quem Mikaeli estava de fato namorando, Jorge acabara desvendando o fio de uma trama. Daniel disse que Paulo tinha dado sorte por outro motivo: se ela se chamasse Ana, Carolina, Paula, Maria, ele nunca teria descoberto. Fora salvo por um nome diferente.

Paulo não pôde acreditar. Aquilo era muito. A loirinha que ele demorara um ano para encontrar estava fazendo isso com ele? Não podia ser. Mas a dúvida que Dom Casmurro um dia sentiu estava afetando sua cabeça. Resolveu ir mais ao trabalho dela, observar seu celular e separou um tempo extra para ler e-mails dela na caixa pessoal. Quando leu num deles que Jorge a tratava por "petisco", fechou-se no quarto por dois dias. Não tomou café da manhã, não almoçou, não jantou.

Deu uma última chance a ela para que ela se explicasse. Não se convenceu. Cancelou o casamento, suspendeu os pagamentos do casamento e marcou uma viagem para bem longe.

Dois meses depois do ocorrido de fato, só o tempo pode ajudá-lo agora.



Escrito por Roberto Rockmann às 08h08
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Apostadores

Aos apostadores de plantão, a boa do curto prazo atende pelo nome de Agra (AGIN3). A Agra não mais existirá em pouco tempo, porque ela, a Abyara e Klabin Segall se fundirão na Agre. Quem comprar as ações da Agra agora logo terá ações da Agre. A perspectiva é de que a empresa seja mais negociada e que o valor suba com a fusão.

Por que comprar a Agra e não as outras duas? É a mais descontada e seus executivos irão comandar a empresa fundida.



Escrito por Roberto Rockmann às 10h53
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Os melhores inícios de filme

1) O Iluminado. Do alto, a câmera segue o carro de Jack Torrance por montanhas, caminhos sinuosos, paisagens paradisíacas e inóspitas até uma construção no meio do nada, onde ele irá passar um inverno apenas com sua família em um hotel com um passado turbulento. Ao fundo uma música de suspense, com toques sinistros. Natureza selvagem, natureza humana, o oculto.

 

 

2) Apocalipse Now. A cena dos helicópteros em formação de ataque a um vilarejo vietnamita, ao som de Richard Wagner e sua imperialista “Cavalgada das Valquírias”, é uma das melhores cenas da história e só ela vale o ingresso, mas o início do filme não é nada desprezível. Ao som de “The End”, o capitão Willard é apresentado e suas emoções vão aflorando à medida que os acordes vão brandindo. Psicodelia na guerra.

 

 

3) Janela Indiscreta. Não há uma fala de ator, mas a câmera vai passeando pelo cômodo e nos explicando que a casa é de um fotógrafo que quebrou as pernas ao fazer uma foto de testemunha ocular em uma corrida de carros. Sem nada o que fazer, fica bisbilhotando a vizinhança com um binóculo. Cinema puro.

 

 

4) Closer. Ao som de Damien Rice, dois estranhos começam a se olhar nas ruas de Londres, quando Alice Ayres, ao atravessar um cruzamento, não olha o lado certo. É atropelada. “Oi, estranho”, diz, caída no chão, socorrida pelo futuro editor de obituários. Os caminhos e descaminhos do coração.

 

 

5) O Resgate do Soldado Ryan. Quase no fim da segunda guerra mundial, a batalha de Utah (da qual Salinger foi um dos protagonistas e na qual ele revelou à filha que o cheiro da guerra fica impregnado nas narinas por décadas) foi uma das mais sangrentas da história. Ainda na água, soldados morriam afogados tentando se livrar de todo o pesado equipamento que carregavam. Outros eram atingidos por balas. Em terra, os alemães descarregavam sua artilharia. Explosões faziam voar pedaços de americanos para todos os lados. A guerra na sua casa. 



Escrito por Roberto Rockmann às 08h00
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O cofre de Salinger

Há hoje uma pergunta de US$ 1 milhão entre jornalistas e editores americanos: o que há no cofre de J.D Salinger?

Não há ainda resposta definitiva à resposta, mas dezenas de especulações que o Washington Post levanta. No livro publicado por sua filha e na obra de uma ex-amante, descreve-se que Salinger, apesar de não publicar um texto desde 1965, não tinha parado de escrever. Escrevia febrilmente. Segunda a filha, haveria duas obras ainda não publicadas.

Em 1999, um vizinho de Salinger disse que o autor tinha dito a ele que tinha 15 manuscritos guardados sob sete chaves e ainda originais. Esse é o número que a imprensa americana publica que pode chegar às livrarias, caso o autor tenha autorizado essas eventuais obras em testamento. Não basta ter escrito, ainda será preciso que ele tenha autorizado sua publicação.

Só se saberá com precisão, se o autor realmente tem originais guardados, nas próximas semanas.

Como bem disse o Hohl, a boa nptícia da morte do Salinger é que, finalmente, talvez possamos ter novos livros dele.



Escrito por Roberto Rockmann às 11h00
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O dia em que Salinger ligou para mim

Se os jornais e revistas daqui dedicam pouco espaço, esse blog insiste em fazer o contrário, por uma simples razão: quem morreu na quinta-feira foi, seguramente, um dos maiores autores da segunda metade do século XX, tendo criado um personagem e uma família que não envelheceram.

 

O Washington Post desse sábado traz uma saborosa história com Roger Lathbury. Professor de inglês na Universidade de George Mason e dono de uma pequena editora nos fundos de sua casa, um dia ele resolveu sonhar alto. Amante de Holden Caulfield desde os 14 anos, quando ficara impressionado com o livro, lançado em 1951, Lathbury decidiu ver se conseguia publicar "Hapsworth 16, 1924", um conto que tinha ocupado 70 páginas, quase toda a edição, de uma New Yorker em 1965.

Último trabalho publicado por Salinger, o conto nunca tinha sido publicado em livro, mas Lathbury achou que tentar não custava nada. Pegou caneta e papel e escreveu uma carta falando de sua vontade em publicar o livro e da sua intenção de ter a autorização de Salinger e de seguir tudo o que autor gostaria de fazer. Ao colocar a carta no envelope, se deparou com um detalhe inusitado: não sabia o endereço de Salinger. Resolveu colocar o sobrenome do autor bem visível no envelope e colocou o nome da cidade de Cornish.

Lathbury não esperava que desse em nada, mas se surpreendeu com uma resposta. "Vou pensar sobre isso."

A alegria durou pouco. Nunca mais ouviu nada do autor até que, em 1996, oito anos após a carta, o telefone tocou em sua residência. "Gostaria de falar com o senhor Lathbury", dizia a voz do outro lado da linha, com um sotaque nova iorquino. "Ele que está falando", respondeu Lathbury. "Aqui é Salinger."

A conversa selou algo inimaginável, a pequena editora de Lathbury, Orchises Press, tinha um acordo exclusivo com um dos mais famosos autores do mundo para publicar um conto que nunca tinha ganho a forma de livro. Roger mal podia acreditar. Os dois conversaram, discutiram detalhes. Salinger se preocupava com a aparência do livro, as letras em que iam ser impressas, a capa. Roger dizia que tudo tinha de ficar à vontade de Salinger.

Marcaram de se encontrar no café da National Gallery. Roger resolveu levar algumas escolhas de capa, o tecido em que elas poderiam ser impressas, exemplos de letras, o texto manuscrito, digitado palavra por palavra da edição original da New Yorker. Colocou tudo numa pasta e foi para o museu.

Quando entrou no museu, a segurança logo achou suspeita a pasta daquele homem com passo apressado. Enquanto tentava mostrar que era um editor e não estava levando nada que pudesse prejudicar as obras guardadas no museu, Roger suava cada vez mais. Estava atrasado para um encontro com um homem que quase ninguém conhecia e que poderia ir embora, se sentindo humilhado por se fazer esperar.

Quando se desvencilhou dos guardas, correu para o café e viu um homem encostado na parede. Era Salinger. "Desculpe, foi a pasta que me fez demorar", disse. "Bem que eu imaginei", disse Salinger, em um tom de voz simpático.

Na hora do pedido, Salinger recomendeu a sopa com toque de parmesão. "Sou vegetariano", disse Roger. "Eu sou muito vegetariano", respondeu Salinger.

Na conversa, Salinger perguntou se Lathbury tinha lido livros sobre a Ciência Cristã - parente da Cientologia. A conversa voltou ao livro - como ele seria editado; não haveria publicidade, nem entrevistas com ele; Salinger também não pediu adiantamento, receberia apenas percentual sobre as vendas.

A conversa rendeu longa correspondência de cartas entre os dois, até que um dia Lathbury resolveu ir à Biblioteca e pedir o histórico da obra, o primeiro passo burocrático para começar a acionar as rotativas. Um repórter de uma pequena cidade americana soube da história e ligou para o editor, que disse que iria publicar a obra. Lathbury pensou que a entrevista num jornal quase de bairro não fosse lida por ninguém, mas o Washigton Post descobriu e fez uma matéria de 1200 palavras. "Livro de Salinger romperá silêncio".

As cartas de Salinger acabaram. Não haveria mais telefones, e o acordo estava cancelado. O recluso autor, mais uma vez, se voltava ao silêncio.



Escrito por Roberto Rockmann às 12h19
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